Comecei a trabalhar nesta profissão em 198... Era uma grande cidade, escola grande com três turnos, manhã, tarde e noite. A escola tinha vários pavilhões e era tão grande que tinhamos duas salas de professores. Nos primeiros dias o porteiro teimava em não nos deixar entrar, a mim e a outra colega. Éramos tão novas que nos confundiam com os alunos. Aí teve que entrar a nossa capacidade de liderança, turmas e conflitos eram o dia-a-dia. Tudo era novo para mim. Um dia, numa aula de uma turma de sétimo ano, um aluno que não queria fazer teste apontou-me uma navalha de ponta em mola e a seguir teve de fugir, pois tive tempo para tocar a campainha. Felizmente a escola era antiga e a campainha estava à mão. A escola chamou logo as autoridades e o aluno foi expulso uns dias depois. As turmas eram grandes, mas nem todos os alunos eram assim, a maioria respeitava-nos, até porque os pais lhes incutiam esse respeito. Hoje estou numa escola pequena comparada com aquela.Tem um terço dos alunos. Não tenho problemas de indisciplina e os alunos são, na maioria, afáveis. Esse episódio de há anos fez com que eu nunca esquecesse a ténue barreira que existe entre professor e aluno numa sala de aula. Há um espaço, sempre necessário a marcar, logo de início, e estabelecer regras num espaço onde circulam professor e aluno. Essas devem ser sempre iguais para todos e justas. Um aluno sabe sempre até onde pode ir, é até onde o professor marca. A relação mútua tem que ser de respeito. Se assim for há uma menor probabilidade de haver "possibilidade" de conflitos. Sei que nem todas as escolas têm este ambiente pacífico, pois já trabalhei em várias, mas nunca tive problemas com alunos, à excepção daquele que me podia ter esfaqueado só porque não lhe apetecia fazer um teste. Penso que um dos segredos é colocar o aluno a trabalhar, desde que entra até que sai da aula, outro será cativá-lo. Outros serão, eu não sei... só posso falar do que resulta comigo e não tenho pretensão de ensinar ninguém a ser professor.
Enfim, talvez não haja receitas, mas uma coisa eu sei, é preciso gostar do que se faz e estar próximo deles, viver o dia com eles e ensiná-los a respeitarem-se e a respeitar o outro...E nunca, mas nunca, quebrar o espaço que se dá no primeiro dia.
Enfim, talvez não haja receitas, mas uma coisa eu sei, é preciso gostar do que se faz e estar próximo deles, viver o dia com eles e ensiná-los a respeitarem-se e a respeitar o outro...E nunca, mas nunca, quebrar o espaço que se dá no primeiro dia.