(...)"Aquele espaço deixava adivinhar todos os verões ali passados pela tia Guida, que se dedicava a pintar e a praticar pesca submarina. A casa estava repleta de quadros, esboços e alguns trabalhos inacabados. Era um local tranquilo. Tinha tudo para nos sentirmos seguros. Cheirava a panquecas. Eram sempre feitas pela manhã, muito cedo, que a tia Guida não era mulher de longos sonos. Ela era uma mulher alta, loura, com uns grandes olhos verdes que espelhavam o mar. Tinha casado há uns anos com um norueguês, que se apaixonara por esta praia do sul, linda e por descobrir. Estava-se nos anos sessenta, mais precisamente em 1961, e a tia Guida tinha aportado com Hans nesta praia. Hans era velejador, jovem e aventureiro, tudo o que o país não era. Tinham-se conhecido no Mediterrâneo, perto de Nice. A tia Guida, nessa época, dedicava-se a pintar paisagens de praias. Nunca mais se perderam de vista. Nesse ano, Hans e Guida iniciaram uma viagem de barco. Hans tinha um veleiro que os trouxera àquela praia. A gruta e todo o espaço envolvente de mistério e beleza eram o que eles idealizavam para construir o seu espaço de descanso e porto de abrigo. Hans e Guida começaram, nesse ano, uma casa que se confundia com a natureza. Feita pelos dois, com a ajuda de alguns pescadores, ficara linda e aconchegante, com uma enorme lareira e amplas janelas viradas para o mar. Nunca mais se fechou aquele porto e Ana ía ali passar todos os tempos de liberdade e férias. "(...)
"A neblina descera à praia durante a noite. Ana não gostou daquele acordar nevoento. Tinha chegado nesse fim – de – semana e planeava apanhar uns dias de sol para finalmente descansar. Após quatro anos de intenso trabalho, conseguira uns dias de férias. A casa da tia Guida era propícia para esse descanso. Construída nos anos sessenta do século vinte, junto aos penhascos da praia dos piratas, tinha um pequeno caminho que levava directamente a uma praia que outrora tinha sido abrigo de piratas. A gruta, sobranceira à praia, deixava adivinhar ainda todos os tesouros escondidos de outrora. Ana adorava aquela praia. Fora a praia dos seus sonhos. Havia uma lenda antiga que contava que por ali ainda pairava o espírito do velho Yorn, um pirata que enterrara um tesouro fabuloso. Ana sempre sonhara encontrar esse tesouro imaginário. Em garota, quando vinha com a mãe, fazia grandes buracos na areia sempre na esperança de encontrar o tesouro. Este sonho já se perdera no tempo, mas este imagin...