
" O martelar das patas dos cavalos e o murmúrio da água embalava-lhes o estado hipnótico. Os pensamentos tornaram-se-lhes indolentes, mas com uma lentidão que transformava os quadros, cujas figuras se arrumavam no cume das montanhas. Uma nuvem negra veio soprada do oceano e pousou numa crista; e o pensamento de Joseph fez dela uma negra cabeça de bode. Via-lhe os olhos amarelos e inclinados, sabichões e irónicos, e os chifres recurvos. Sentia-se dotado do poder de criar coisas tão reais como a terra.
Elizabeth teve um ligeiro calafrio e ele voltou-se para ela. « Tens frio, querida? Vou buscar a manta dos cavalos para te tapar os joelhos.» Ela tremeu outra vez, já não tão bem como da primeira, porque estava a fazer de propósito.
«Não tenho frio», disse ela, «mas a hora é tão estranha. Gostava que falasses comigo. É uma hora perigosa.»
«Que queres dizer? Perigosa?» Agarrou-lhe nas mãos e pousou-a sobre os joelhos.« Quero dizer que não há perigo de nos perdermos. É a luz a sumir-se. Pareceu-me de repente sentir que me espalhava e desvanecia como uma nuvem, misturando-me com tudo o que me rodeia. Sentia-me bem, Joseph. Depois passou o mocho; e tive medo de me misturar demasiadamente com os montes e nunca mais poder voltar a encontrar-me na pessoa de Elizabeth.»
« É só a hora», tranquilizou-a ele. Parece afectar todas as criaturas vivas. Já alguma vez reparaste nos animais e nas aves, quando chega a noite?»
« Não», disse ela, voltando-se ansiosamente para ele, porque lhe parecera descobrir uma forma de comunicação. « Não creio ter alguma vez reparado com muita atenção fosse no que fosse», continuou ela. « Agora parece-me de repente que alguém limpou as lentes dos meus olhos. Que fazem os animais ao cair da noite?»
A voz dela tornara-se nítida e seca e cortara o devaneio de Joseph.
« Não sei, disse ele taciturno. « Quero dizer...sei, mas tenho de pensar. Estas coisas nem sempre estão assim à mão, sabes?», desculpou-se. E calou-se a olhar para a escuridão que se amontoava. « Sim», disse por fim, «é assim mesmo - todos os animais ficam muito quietos quando vem o escuro da noite. Não pestanejam, e põem-se a sonhar. » Voltou a calar-se.
John Steinbeck, A Um Deus Desconhecido