
"Ainda a via a deambular por todas aquelas salas e era capaz de sentir o seu perfume, doce, com misturas de odores de árvores exóticas.
A mãe de Miguel era uma mulher bonita, alta, com uns grandes olhos castanhos, elegante, com uma preferência especial por roupas práticas e alegres que condiziam absolutamente com todo aquele espaço. Ela gostava de fazer as suas roupas bem como os seus adornos, mas sobretudo adorava aquela paz que se vivia na fazenda, com as noites passadas no amplo terraço, onde se serviam refrescos e onde, por vezes se conversava até tarde.
A Casa era vasta de uma vastidão quente. Parecia estar-se num outro mundo. Sofia, assim era o nome dela, vivia ao máximo toda a sabedoria daquele espaço guardado pelo tempo. Não pensava sair dali. Até que veio a guerra e a urgência de partir. Tudo podia acontecer. O pai de Miguel, Gonçalo, teve receio pelas vidas dos seus e foi com uma mágoa imensa que partiu. Tudo ficou para trás, como se a ausência fosse curta, mas nunca mais voltaria. Cabia agora a Miguel levantar tudo das cinzas, qual Fénix renascida. Foi a chegada a um mundo estranho. Tudo estava ali, até o velho piano em que a mãe tocava, noite dentro, ou quando havia visitas. No seu quarto ainda pôde encontrar algumas das roupas dela. Como era possível? Tantos anos e tudo continuava ali, como se tivessem saído no dia anterior. Havia uma explicação. Os criados da fazenda, toda a vida tratados com muita afeição, tinham preservado aquele espaço, evitando os assaltos e as pilhagens. Tinham-no como seu e assim o defenderam.
Miguel ficaria grato para sempre a todos aqueles que tinham guardado as suas memórias, que lhe permitiam agora estar ali."