"Longe ia o tempo em que Ana observava a lua e se comprazia com a sua visão. Agora ela estava só no seu mundo demasiado privado e repleto de sombras. Essas assustavam-na ao ponto de ter medo da lua. Sonhava frequentemente com as pessoas de outrora, fantasmas inglórios plenos de vidas tristes e não vividas. Uma prima longínqua matara-se. Não aguentara as pressões da época. Tinha sido invadida por uma tristeza profunda. Ana questionava-se frequentemente se valia a pena continuar. Ela adorava a vida. Sentia-se abafada por uma vida insípida e demasiado terrestre. Já não se lembrava da última vez em que saíra para jantar, ir ao cinema, dançar ou simplesmente passear. A sua vida tornara-se, em poucos meses, algo de irreal que quase não conseguia descrever. Precisava voltar a casa da tia, comer bolo de chocolate, sentar-se à lareira e sentir-se quente de novo. Mergulharia na baía e sentiria a água morna acariciar-lhe o rosto, como nos tempos de escola. Estava ela absorta nestes pensamentos, quando apareceu o Paulo. Acordou do seu torpor. O Paulo espantou-se com as mudanças. Ana não era mais aquela mulher alegre, viva e que irradiava força para todos os que a rodeavam. "Que aconteceu contigo, Ana?". Ela não sabia o que dizer. Nem sequer tinha percebido que a sua tristeza estava espelhada na sua face. Tentou esconder-se, falou de cansaço, noites mal dormidas, muito trabalho. Não quis que Paulo percebesse que ela se sentia completamente destroçada. Ana não gostava de partilhar as suas desilusões. Isso assustava-a e limitava-a ainda mais. Talvez o Paulo acreditasse nela. Mas não, ele conhecia-a bem demais. A Ana precisava de ajuda. Algo não estava bem com ela. Ele sabia que ela não falaria. Debaixo daquela cara fina e de uma beleza rara, estava uma mulher demasiado sensível para a vida que lhe tinha sido destinada. Ela sofria tanto que até já esquecera que a vida era demasiado bela para ser desperdiçada. Enfim, Ana era muito infeliz. Paulo apercebeu-se de tudo, mas não sabia por onde começar. Ana estava a morrer. Ele tinha que a ajudar a libertar."
in, Contos do Mar