Desta vez o tema era o mar. Muitos dos que compravam os quadros não conheciam Ana. Ela não aparecia e pairava no ar uma luminosidade e um mistério que lhe agradavam. Ana iria mudar? Caro leitor, veremos até onde nos leva a história de Ana. Chegada à cidade bem cedo Helena sabia que ana se instalara no quarto "com vista", como ela costumava dizer. Era o quarto preferido de Ana, embora ela nunca dissesse a que horas chegava. Helena só sabia a que horas a devia procurar. Essa era certa.Às nove em ponto lá estava Ana na sala do pequeno-almoço feliz, radiosa e pensativa. Não lhe agradava nada ter de fazer mais uma exposição, mas tinha de a fazer e chegara finalmente a hora de tratar de tudo. Já se sentia bem por não saberem quem era ela. Isso deixava-a tranquila. Conversaram longamente acerca dos pormenores e partiram para a "Galeria". Era este o nome do novo espaço. Os quadros iam chegar pela manhã e ela queria assistir à descarga. Geralmente não eram muito cuidadosos e tudo tinha de ser supervisionado. A exposição duraria um mês e estavam ali os últimos trabalhos de Ana. Helena trataria de tudo para que Ana pudesse partir depressa. Iniciou-se uma semana de intenso trabalho, sob o olhar atento de Ana. Estaria apenas no dia da inauguração. Aprendera que tinha de ser. Não que gostasse muito, mas de outra forma começariam a pensar que ela era invisível. Uma parte do lucro seria para ajudar uma escola em África. Esse era o seu desejo e deixava-a tranquila poder ajudar alguém a crescer. Entristecia-a saber que havia crianças que não tinham lápis ou papel. Os livros viriam depois. Primeiro era necessário arranjar professores. Tudo isto fazia parte do seu ser e dos seus sonhos. Ajudar os desfavorecidos era para ela uma forma de vida. Ana acreditava, acreditava muito e isso levava-a longe e a não desistir dos seus projectos. O espírito irrequieto desta mulher nunca a deixaria parar. Fazia um mês que Miguel partira e estava preocupado em instalar-se e o que já conseguira superava as suas expectativas. Sea que Ana conseguiria juntar-se-lhe nesta nova vida? Para já havia que cumprir as Horas de cada um e daí nasceria uma nova vida.
"A neblina descera à praia durante a noite. Ana não gostou daquele acordar nevoento. Tinha chegado nesse fim – de – semana e planeava apanhar uns dias de sol para finalmente descansar. Após quatro anos de intenso trabalho, conseguira uns dias de férias. A casa da tia Guida era propícia para esse descanso. Construída nos anos sessenta do século vinte, junto aos penhascos da praia dos piratas, tinha um pequeno caminho que levava directamente a uma praia que outrora tinha sido abrigo de piratas. A gruta, sobranceira à praia, deixava adivinhar ainda todos os tesouros escondidos de outrora. Ana adorava aquela praia. Fora a praia dos seus sonhos. Havia uma lenda antiga que contava que por ali ainda pairava o espírito do velho Yorn, um pirata que enterrara um tesouro fabuloso. Ana sempre sonhara encontrar esse tesouro imaginário. Em garota, quando vinha com a mãe, fazia grandes buracos na areia sempre na esperança de encontrar o tesouro. Este sonho já se perdera no tempo, mas este imagin...