"O pai de Miguel já tinha partido há algum tempo. Uma doença dura que não lhe perdoou a vontade de viver levou-o precocemente. A mãe, com o sofrimento da perda do seu lar, em Angola, nunca mais fora a mesma, entrou numa depressão profunda que se prolongou por anos, tendo piorado após a morte do marido. Nem o Miguel a conseguira salvar da decadência. Tinha uma saudade longínqua de tudo o que deixara. Afinal ela nascera lá. Nunca conhecera outro país, o seu país, e faltava-lhe o calor de África e da Casa Grande, dos seus entes queridos e de tudo o que deixara, da Nana que sempre a ajudara e que era o seu braço direito. Acabou por enlouquecer de tanta tristeza. Teve que ser internada, pois alheou-se completamente de tudo e deixou de se conhecer. Aos poucos ainda conhecia o Miguel, mas depressa o esqueceu. Não entendia porque é que aquele rapaz esbelto de olhos azuis a visitava com tanta frequência e a tratava assim, de forma tão carinhosa. Perdera as memórias e vivia num sonho diferente, no seu mundo adquirido pelas desilusões fortes. Miguel sentia-se triste, pois aquela não era a mãe da sua infância, mas sabia que não havia retorno. Foi mais fácil partir. Afinal a mãe já não o conhecia e ficava bem entregue, não havia qualquer dúvida."
Linda