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A bata branca

Mais um ano e com esta passagem do tempo tão rápida tenho a noção exacta da efemeridade da vida.

Vêm-me à memória tempos passados.
Uma menina de tranças ía para a escola. Bata branca, sempre muito limpa. Meias até ao joelho. Calças, nem pensar.Uma  menina não veste calças, só saias, dizia o pai. Enfim, outros tempos. À custa das saias andava sempre com os joelhos esmurrados das brincadeiras.  Mais tarde passou anos sem usar uma saia. A sala de aula tinha um crucifixo na parede, por cima do quadro negro e, de um lado estava o presidente do conselho e de outro o da república. Dava consigo a olhar para aquelas imagens severas e abstraía-se da realidade. Mas, depressa voltava à terra, pois a professora não era para brincadeiras e não eram admitidas distracções. Ainda hoje consegue ouvir palestras e discursos deveras aborrecidos sem que dêem conta das suas deambulações. As semanas tinham seis dias de aulas. Só o domingo escapava. Ao sábado só havia escola de manhã. A turma era feminina e ela era uma boa aluna. Gostava desse facto. Amava os livros, digo amava pois eram intocáveis. Ainda hoje são relíquias para ela. Trata-os pela alma que contêm. Gostava da escola. A  professora, embora reformada, ainda é viva e quando se encontram sente que a estima e tem orgulho nela. Fica feliz e sabe o que ela sente, pois quando encontra os seus antigos alunos, principalmente os que lhe deixam saudades, sente o mesmo. Hoje não há batas brancas e ela tem saudades. Mais tarde, no colégio, no terceiro ciclo ainda usou bata preta. Era a farda do colégio. Com o vinte e cinco de Abril o colégio passou de privado a público e acabaram as batas. Não gostava das batas pretas, foi um alívio. Muita coisa mudou nesse ano. Veio a liberdade de expressão e ela lutou contra o uso obrigatório da saia lá em casa. Usou calças dois anos seguidos. O tempo passou e hoje relembra aqueles tempos com nostalgia, mas sem saudades.  As salas já não têm os símbolos do poder nas paredes, já não se reza de manhã e não se canta o hino nacional ao sábado nem o hino da mocidade. Os tempos são outros, mas nunca irá esquecer a sua escola, a sua turma e a sua professora do 1º ciclo. Foi uma época que a marcou para a vida.

Autor do texto: Maria Ruas
Imagem: Nóvoa, António. Evidentemente

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